quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ainda a insensibilidade de Cavaco

Não há muito mais a acrescentar à enorme gafe do Presidente Cavaco.
Ontem houve uma "manifestação de solidariedade" com o Presidente, montanda muito rapidamente através da internet, o que é sintomático de até que ponto aquela intervenção foi disparatada. E houve também uma pedição online a pedir a sua demissão com enorme sucesso.
Isto diz bem até que ponto o senhor perdeu uma excente oportunidade de estar calado.

É evidente que Cavaco é aquilo: um tipo que se pretende passar como um homem do povo, que veio de baixo, quando a verdade não é exactamente essa - é filho de um comerciante algarvio razoavelmente bem sucedido, vindo de uma classe média num contexto em que 80% da população vivia miseravelmente, e que teve por isso oportunidades que a maioria da sua geração não teve. Depois foi sempre académico ou político. E tudo isto não tem mal. O que está errado é Cavaco ter criado e promovido uma imagem de que é um homem de enormes méritos porque veio de baixo e é um self made men - e isso é uma fantasia criada por ele e alimentada pelos media durante anos.

Neste caso, Cavaco quis também passar por um trabalhador e reformado como os outros - e não é. E ele sabe que não é. Mas gosta de fingir que sim e de dar lições do alto da sua cadeira presidencial.

É claro que a mensagem que queria deixar, usando estupidamente o seu exemplo pessoal, era que:
   1) também é afectado pela crise
   2) é muito importante preparar o futuro poupando - nomeadamente para complementar a reforma quando se for idoso - e isto já vai passando a ideia de que as reformas serão baixinhas e que cada um tem que pensar na sua vidinha.

E esta forma de pensar é, em minha opinião, em si mesma repugnante porque:

1) Cavaco não está na situação económica da esmagadora maioria dos portugueses, e por isso os sacrifícios nele não pesam como nos reformados com pensões mínimas por exemplo, ou nos trabalhadores desempregados a receber subsídio de desemprego, ou nos trabalhadores com os salário médio nacional que ronda 800€;

2) Ainda que Cavaco ache muito importante poupar, devia saber que uma coisa é a capacidade de poupar de alguém que declarou 140.000€ de rendimento o ano passado, outra é a capacidade de poupar de uma família normal.
Por outro lado, a decisão de poupar, gastar, endividar-se ou queimar o dinheiro que ganha é uma decisão do foro individual e privado de cada um, e para a qual cada um tem completa liberdade, devendo assumir as responsabilidades pelas suas decisões.
Que direito tem o Cavaco de vir mandar bitaites sobre a minha liberdade de fazer o que quiser com as minhas finanças individuais?

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