Sob o muito diáfano pano de fundo do combate às reformas milionárias, e da sustentabilidade da Segurança Social (leia-se diminuição de garantias aos cidadãos por esta via), o governo tem na calha a criação de tectos máximos para as reformas.
Esta aparentemente razoável medida terá como contraponto a criação de tectos para os valores a descontar, ou seja, quem mais ganha contribuirá menos (ou muito menos) para o sistema, disponibilizando enormes volumes de capital que certamente a Banca e as Seguradoras trabalharão para capturar – tanto mais que esta medida poderá ser acompanhada de benefícios fiscais que promovam a criação de planos de seguros de reforma individuais.
Assim, com esta medida conseguem-se vários efeitos:
1. Quem ganha mais fará seguros privados que complementarão no futuro a sua reforma do Estado, ou seja, as reformas milionários continuaram a existir, ainda que parceladas;
2. São olimpicamente retirados milhões de euros de receitas futuras de Segurança Social, obrigando a recálculos actuariais complexos, mas que seguramente concluirão pela maior fragilidade da sustentabilidade do sistema, face ao que existe hoje;
3. O cidadão comum poderá esperar uma reforma (ainda) mais limitada, num sistema menos sustentável;
4. O sector financeiro encaixa um enorme volume de recursos até agora encaminhados para a Segurança Social, melhorando espectacularmente os seus resultados e gerando liquidez para continuar a aplicar da mesma de forma especulativa, na certeza de que quando houver azar (e é só uma questão de tempo), haverá sempre o Estado a garantir o que quer que seja, agora por maioria de razão (o potencial de danos por falência ainda será maior).
Mais uma vez se confirma que este governo, como se calhar todos os dos últimos 20 anos, é dominado pelos grandes interesses, para os quais de facto se governa.
A democracia é um bom enquadramento para camuflar esta realidade, e a comunicação um veículo fundamental para manter a população serena.

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