quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Que desperdício

Isto é um problema gravíssimo. Depois de gastarmos recursos (públicos) na formação dos nossos melhores, oferecemos este investimento estrutural a terceiros.

E qual a solução do governo? Aprofundar este movimento promovendo uma recessão económica que traz mais desemprego e menos oportunidades (em prol da satisfação plena dos interesses dos credores externos), aumentando a idade de reforma reduzindo as oportunidades, reduzindo os apoios ao desemprego para desincentivar os masoquistas que ainda queiram ficar, e promovendo pelo discurso a emigração (discurso da "zona de conforto" e da "pieguice").

E qual a solução de longo prazo? Limitar o acesso ao ensino superior logo no secundário. Se continua este caminho, daqui a uma geração o problema do desemprego entre licenciados estará resolvido porque o número de licenciado ter-se-á reduzido drasticamente e regressaremos neste particular à realidade anos 60 e 70, quando apenas as classes mais elevadas tinham acesso ao ensino superior, garantindo deste modo empregabilidade e limitando fortemente essa maçada que é a mobilidade social e a preocupação com a igualização das oportunidades.
As economias sub-desenvolvidas, extremamente desiguais, não têm problemas de desemprego entre licenciados.

Com isto não ponho em questão ter havido ao longo dos anos exageros, terem-se criados cursos em excesso e sem qualquer sentido de empregabilidade, que entendo dever ser uma variável a considerar. No entanto, a solução não pode ser voltar para trás e perder tudo o que de bom se fez. Mal ou bem, as gerações mais recentes têm uma formação geral elevada e conseguiu-se formar uma quantidade enorme de grandes cérebros no país. A lástima é que se já não havia lugar para todos, com esta política acabará a não haver lugar para quase nenhum, e a prazo reduzir-se-á o seu número. E isso é o mais inexorável caminho de empobrecimento, estrutural, grave, e com consequências por várias gerações. Por outras palavras, é o caminho do abismo.

Sou de uma geração que beneficiou brutalmente com a "igualização" de oportunidades. Eu beneficiei do facto do meu pai, vindo das classes mais baixas, ter tido a oportunidade de estudar (e trabalhar ao mesmo tempo), permitindo-me ter acesso a formação - e a emprego, e a salário, e a perspectivas, e a aspirações -  que ele próprio não teve. Custa-me admitir que os meus filhos, e os filhos da gente da minha geração, percorrerão o caminho inverso. E tudo farei para que isso não suceda.

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